Ainda Vamos Comprar Tecnologia?

A Apple acaba de lançar nos Estados Unidos um programa que permite alugar o iPhone em vez de comprá-lo, e vários fabricantes de robôs domésticos com inteligência artificial já oferecem suas máquinas por uma mensalidade fixa. Estamos diante do fim da propriedade tecnológica ou de um modismo passageiro? O debate sobre se o aluguel vai substituir a compra apenas começa, e suas consequências econômicas alcançam todos nós.

O Caso que Acendeu o Debate

Por: Gabriel E. Levy B.

Em 28 de julho de 2026, a Apple lançou nos Estados Unidos um programa chamado Apple Upgrade. A empresa o descreveu em seu próprio comunicado como um arrendamento de consumo e esclareceu que não se trata de uma compra nem de um empréstimo. O jornalista Mark Gurman, da Bloomberg, havia antecipado o movimento dias antes. A mensalidade começa em 17,99 dólares por um iPhone, e o programa cobre também os outros aparelhos da marca, do Mac ao Apple Watch. O financiamento fica por conta da Klarna, uma empresa sueca de pagamentos parcelados que assume o risco caso o cliente deixe de pagar.

A diferença em relação ao passado é profunda. Durante uma década, a Apple ofereceu o iPhone Upgrade Program, um crédito que, ao ser quitado, deixava o telefone nas mãos do cliente. Com o Apple Upgrade, quem paga durante dois anos precisa devolver o aparelho, comprá-lo com um pagamento extra ou trocá-lo pelo modelo mais novo. Pela primeira vez, um cliente que financia com a Apple pode terminar o contrato sem nada de próprio.

Alugar em vez de Comprar

Convém esclarecer os termos, porque costumam se confundir. Comprar significa pagar uma vez e ficar com o aparelho para sempre. Financiar em parcelas consiste em dividir esse pagamento em prestações, sempre com a propriedade como meta final. O arrendamento, que em inglês chamam de leasing, funciona de outro jeito: pagamos para usar o equipamento durante um prazo combinado e o devolvemos no fim. A assinatura de hardware dá um passo além, com uma mensalidade que não termina enquanto quisermos continuar usando o produto.

No mundo das empresas, esse modelo tem nome próprio. Os especialistas o chamam de Device as a Service, ou dispositivo como serviço, e consiste em pagar uma mensalidade que cobre o equipamento, o suporte técnico, os reparos e a troca final. Companhias como HP, Dell, Lenovo e Microsoft o oferecem a outras empresas há anos, pois elas preferem um gasto mensal previsível a desembolsar de uma vez por centenas de computadores. A novidade é que esse esquema começa a bater à porta dos lares.

Dos Robôs aos Automóveis

O caso mais chamativo são os robôs domésticos com inteligência artificial. A empresa 1X, apoiada pela OpenAI, oferece seu robô humanoide NEO por 20 mil dólares ou por uma mensalidade de 499 dólares. Vários analistas do setor calculam que a maioria dos fabricantes de humanoides vai preferir a assinatura, porque o preço de compra fica impossível para quase qualquer família. A Tesla, que desenvolve seu robô Optimus, ainda não confirmou nem o preço nem a forma de venda.

Os automóveis já percorreram esse caminho. Em 2022, a BMW tentou cobrar uma assinatura mensal para ligar os bancos aquecidos de seus carros, um recurso que o comprador já tinha instalado de fábrica. A rejeição foi tão grande que a marca tirou os bancos do esquema, embora mantenha outras funções sob pagamento recorrente. Os notebooks seguem a mesma rota, com programas de aluguel que prometem renovar o equipamento a cada poucos anos. Aquela polêmica da BMW deixou uma lição clara sobre até onde as pessoas aceitam ir.

Por que Convém às Empresas

Por trás dessa tendência há uma lógica de negócio muito clara. Uma venda única traz dinheiro uma só vez. Uma mensalidade traz dinheiro todo mês, durante anos, e essa receita recorrente, a que chega de forma repetida e previsível, vale mais na bolsa do que uma venda avulsa. A consultoria Zuora, que mede a chamada economia de assinatura, documentou que as empresas baseadas em mensalidades cresceram mais rápido do que a média das grandes companhias norte-americanas nos últimos anos.

O arrendamento, além disso, prende o cliente. Quem aluga um iPhone renova dentro do mundo Apple e soma o armazenamento na nuvem à mesma fatura. Tim Cook, que deixou a direção executiva da Apple em setembro de 2026, defendeu o programa diante dos analistas e destacou que os produtos da marca mantêm um alto valor de revenda. O fabricante recupera o aparelho devolvido, o recondiciona e o vende de novo, ganhando duas vezes com o mesmo aparelho.

O que Ganhamos e o que Arriscamos

Para quem usa tecnologia, o modelo traz vantagens reais. O desembolso inicial cai e o equipamento se mantém em dia, com a manutenção incluída na mensalidade. Num continente onde comprar um telefone de ponta equivale a vários salários, pagar pouco a cada mês abre a porta a milhões de pessoas. Na Colômbia, operadoras como a Claro financiam aparelhos por meio de parceiros como a Tenderete, que instalam um aplicativo de bloqueio no telefone como garantia de pagamento.

Os riscos também são concretos. No longo prazo, a soma das mensalidades pode superar o preço de compra, e nunca chegamos a possuir o aparelho. Se deixamos de pagar, o perdemos. A isso se somam a dependência de um único fornecedor, a coleta constante de dados, a perda de controle e o cansaço de acumular assinaturas, um fenômeno que nos Estados Unidos já leva muitos lares a cancelar serviços que antes pagavam sem pensar. Há também um lado ambiental simpático, porque o aparelho devolvido é recondicionado em vez de acabar numa gaveta. A pergunta de fundo é quem controla a tecnologia que usamos todos os dias.

Em resumo, o arrendamento e a assinatura avançam como formas de acessar a tecnologia, e a Apple acaba de lhes dar um empurrão histórico com seu iPhone alugado. O modelo promete equipamentos sempre novos e menos gasto de entrada, em troca de abrir mão da propriedade e pagar sem fim. Se vai substituir a compra ou conviver com ela é algo que decidiremos todos, mensalidade após mensalidade.

Referências

  1. Apple. (28 de julio de 2026). Apple Upgrade launches in the United States. Apple Newsroom. https://www.apple.com/newsroom/2026/07/apple-upgrade-launches-in-the-united-states/
  2. Gurman, M. (21 de julio de 2026). Apple to launch a device leasing program with Klarna. Bloomberg.
  3. TechCrunch. (28 de julio de 2026). Apple launches ‘Upgrade’ device leasing program in partnership with Klarna. https://techcrunch.com/2026/07/28/apple-launches-upgrade-device-leasing-program-in-partnership-with-klarna/
  4. Zuora. (15 de abril de 2025). Subscription Economy Index 2025.
  5. RoboZaps. (2026). Neo Robot vs Tesla Optimus: Home Humanoid Comparison. https://blog.robozaps.com/b/neo-robot-vs-tesla-optimus
  6. Rooney, K. (14 de julio de 2022). Why BMW is offering heated seats on a monthly subscription. CNN Business. https://www.cnn.com/2022/07/14/business/bmw-subscription
  7. Mordor Intelligence. (2026). IT Hardware Subscription and Device-as-a-Service (DaaS) Market. https://www.mordorintelligence.com/industry-reports/it-hardware-subscription-and-device-as-a-service-market
  8. Claro Colombia. (2026). Alianzas financieras. https://www.claro.com.co/personas/tienda-claro/alianzas-financieras/