Do satélite ao celular, o novo paradigma da conectividade

Embora há vários anos empresas como a Starlink venham oferecendo o serviço de conectividade via satélite, os serviços de mobilidade estiveram limitados a navios, trens, aviões e automóveis, mas isso está mudando.

Empresas como a AST SpaceMobile e a própria Starlink já conectam celulares comuns a satélites em órbita com uma cobertura muito boa. Países como Chile e Peru, na América Latina, já ativaram o serviço comercial, enquanto outros territórios, como Colômbia e Costa Rica, por enquanto fazem testes-piloto sem grandes avanços.

Uma mudança nos paradigmas da conectividade

Por: Gabriel E. Levy B.

Embora a tecnologia via satélite não seja nova, nem a mobilidade, a possibilidade de conectar celulares a dados em um lugar remoto e isolado esteve restrita a serviços muito exclusivos e de alto custo, como a tecnologia Iridium, que além disso exigia telefones volumosos e caríssimos, pensados para navios, petroleiras ou expedições. No entanto, tudo indica que a equação pode mudar muito em breve.

Uma tecnologia pouco conhecida no dia a dia, chamada direto ao celular, ou D2C na sigla em inglês, está mudando essa lógica e revolucionando significativamente a conectividade no Norte global. Hoje um smartphone comum, até mesmo de baixo custo, sem acessórios nem aplicativos adicionais, pode se conectar via satélite de forma eficiente e a custos muito inferiores aos que estávamos acostumados até agora.

Em meados de 2026, a SpaceX tem mais de 700 desses satélites em operação, com serviço em 22 países e cerca de 60 modelos de smartphones compatíveis, em sua maioria da Samsung, Motorola e Apple, embora não sejam as únicas marcas que funcionam, e o serviço é compatível tanto com Android quanto com iOS.

O impacto nos provedores ISP

Em praticamente toda a América Latina, com exceção do Uruguai e do Chile, a maior parte da conectividade rural não depende das grandes operadoras de telecomunicações, mas está nas mãos dos ISP regionais, pequenas empresas provedoras de internet, muitas delas micro e pequenas empresas, cooperativas, associações ou empresas familiares, assim como dos WISP, que nada mais são do que a variante sem fio desse modelo de negócio e distribuem o sinal a partir de antenas instaladas em morros, telhados e fazendas.

Para eles, a pergunta é óbvia: o satélite que fala direto com o celular vai tirar seus clientes?

No curto prazo, o impacto dessa nova tecnologia D2C de conectividade via satélite parece muito limitado. A conexão direta ao celular oferece hoje velocidades modestas, como veremos mais adiante, e funciona sobretudo ao ar livre. Dentro de casas, túneis, florestas ou abrigos, a cobertura desse tipo de serviço é praticamente nula.

A realidade na prática é que uma família que assiste à televisão pela internet, um estudante que acompanha aulas on-line, um agricultor que vende seus produtos pela internet ou até o jovem que consome redes sociais continuará precisando do serviço fixo prestado pelo WISP da cidade.

O risco aparece em outras frentes, embora também seja limitado e, por si só, não constitua uma ameaça tangível.

Em primeiro lugar, estariam os usuários que pagam um plano básico apenas para se comunicar, que poderiam preferir um complemento via satélite incluído em seu plano de celular. Dessa forma, um serviço via satélite acaba sendo empacotado com o tradicional.

A segunda frente de um eventual risco é o espectro radioelétrico, já que empresas como a Starlink precisam arrendar frequências de operadoras móveis licenciadas, como fez com a Entel no Chile e no Peru, e a realidade é que os WISP não têm essas frequências, de modo que o novo negócio acaba fortalecendo os grandes players do mercado, como Claro, Tigo ou Movistar.

Por outro lado, no médio prazo, a ameaça pode sim crescer substancialmente, já que empresas como a AST SpaceMobile prometem velocidades de pico superiores a 150 megabits por segundo em cada célula de cobertura. Se de fato cumprirem, algo complexo, competiriam de frente com muitos planos rurais de acesso à internet, embora seja necessário esclarecer que não se sabe quanto um serviço desse tipo poderia custar.

A prudência é a melhor conselheira

A história recente nos convida, no entanto, à cautela, evitando os discursos apocalípticos. Por exemplo, em 2023, quando a Starlink chegou com seu pacote de acesso à internet residencial, muitos a viram como a carrasca dos WISP, mas a realidade nos mostrou que muitos deles acabaram comprando o serviço via satélite e redistribuindo-o por Wi-Fi entre dezenas de residências, como analisamos na época em um artigo anterior da Andinalink.

A própria Starlink prefere entrar na América Latina de mãos dadas com operadoras locais, e esse tem sido seu método de sucesso. No Brasil, por exemplo, a provedora Alares distribui o serviço residencial em áreas sem fibra e mantém o relacionamento com o cliente, tornando-se uma aliada estratégica de um produto de alto custo, sem precisar investir em infraestrutura nem em tecnologia.

Na Colômbia também se abre uma janela muito promissora. Recentemente, a ANE (Agência Nacional do Espectro) modificou as condições da faixa de 900 MHz para que, pela primeira vez, comunidades organizadas e ISP regionais possam acessar esse espectro, um projeto bastante bem-sucedido em que os testes técnicos alcançaram até 32 megabits por segundo, inclusive em áreas de difícil cobertura.

Na minha opinião, os WISP que sairão mais fortalecidos dessa concorrência feroz são os que usarem o satélite como mais uma fonte de capacidade e oferecerem o que um telefone conectado à órbita não garante: suporte próximo e preços pensados para a zona rural e para a realidade de sua vizinhança.

Chile e Peru abriram a porta

Na América Latina, a Entel, uma das principais empresas de telecomunicações da região, saiu na frente ao habilitar mensagens de texto via satélite em novembro de 2025 e, desde 25 de março de 2026, permite usar WhatsApp, Google Maps, AccuWeather e X em áreas sem sinal terrestre, como complemento aos serviços já contratados pelo usuário, reduzindo drasticamente as áreas sem cobertura.

Com esse passo, o Chile se tornou o primeiro país da região e o sétimo do mundo a oferecer o serviço, enquanto o Peru segue de perto, já que a Entel Peru começou em dezembro de 2025 com mensagens e depois somou aplicativos a seus serviços de dados. É preciso reconhecer que esses avanços ocorreram mais pelo interesse de uma empresa privada em massificar os serviços do que por uma iniciativa governamental a respeito, uma aposta interessante que dá a essa empresa uma notável vantagem competitiva sobre Claro, Tigo e Movistar.

Duas apostas e muitos limites

Nessa corrida, é importante destacar que a Starlink não é a única com visão. A AST SpaceMobile, em aliança com as gigantes AT&T e Verizon, apostou em concentrar seus esforços em poucos satélites enormes, cujas antenas superam 220 metros quadrados e que foram projetados para levar banda larga móvel a telefones sem modificações. Sob esse modelo, a empresa esperaria ter entre 45 e 60 desses satélites em órbita no fim de 2026, o que a torna uma concorrente real e forte para a empresa de Elon Musk.

Outro tema que não podemos deixar de fora é a latência, ou seja, o tempo que o sinal leva para ir e voltar, que varia entre 100 e 600 milissegundos. Isso basta para uma mensagem, um mapa ou um alerta de socorro, de modo que assistir a uma série em alta definição na Netflix a partir de um páramo andino ou a vídeos do TikTok no meio da selva está, por enquanto, descartado, pelo menos enquanto a tecnologia evolui e as velocidades melhoram substancialmente.

A Colômbia testa, mas não liga

Na Colômbia, o celular via satélite ainda não está disponível para o público. Em 26 de maio de 2026, o Ministério TIC, a Agência Nacional do Espectro (ANE) e a Comissão de Regulação de Comunicações (CRC) realizaram um piloto na lagoa Los Tungos, em Sumapaz, uma região de mata nas imediações de Bogotá, e o fizeram a partir de um ponto sem cobertura de redes celulares, com um telefone Android que enviou uma mensagem de socorro pela rede da Skylo e um satélite da Viasat. O resultado é que o alerta chegou como esperado ao C4 de Bogotá, o centro que coordena as emergências da cidade, ou seja, um teste bem-sucedido.

A ANE publicou um documento técnico com diretrizes para habilitar essa conectividade. Seu diretor, Sergio Sotomayor, reconheceu que nenhuma operadora colombiana anunciou publicamente um projeto desse tipo, embora também não tenha descartado que alguma esteja interessada em fazê-lo. Da mesma forma, advertiu que usar para satélites as mesmas frequências das redes terrestres exige ajustes jurídicos no plano de ordenamento do espectro do país.

A CRC, por sua vez, estuda as redes não terrestres, termo que reúne os satélites e outras plataformas aéreas, com cenários projetados até 2035. Sua análise identifica cinco questões-chave: cobertura, qualidade do serviço, dispositivos compatíveis, uso do espectro e concorrência.

A consulta ao setor se encerra em 2 de outubro de 2026.

A demora tem explicações técnicas, embora seja difícil aceitá-la. Por exemplo, no Chile já é possível escrever pelo WhatsApp a partir de Rapa Nui, enquanto na Colômbia ainda discutimos quem deve receber a chamada de socorro.

Em resumo, os telefones que se conectam diretamente a satélites deixaram de ser uma promessa. Há alguns meses funcionam no Chile e no Peru graças à Entel, e a Colômbia passou em seu primeiro teste em Sumapaz. Chegar tarde dá ao país a vantagem de aprender com seus vizinhos. Essa margem se esgota rápido, e as regras escritas agora definirão se o céu complementa as redes nacionais ou as substitui sem controle público.

Referências

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  8. El Colombiano. (2026, 10 de agosto). El futuro de las telecomunicaciones debe convertirse en proyecto nacional. https://www.elcolombiano.com/opinion/columnistas/el-futuro-de-las-telecomunicaciones-debe-convertirse-en-proyecto-nacional-EC39807443
  9. Impacto TIC. (2026, 19 de junho). ANE traza la hoja de ruta del espectro en Colombia: banda de 900 MHz, 5G y tecnología satelital de emergencia. https://impactotic.co/politicas-tic/ane-traza-la-hoja-de-ruta-del-espectro-en-colombia-banda-de-900-mhz-5g-y-tecnologia-satelital-de-emergencia/
  10. Infobae. (2025, 22 de dezembro). Cómo funciona Starlink en el celular y qué requisitos se deben cumplir para usarlo. https://www.infobae.com/tecno/2025/12/22/como-funciona-starlink-en-el-celular-y-que-requisitos-se-deben-cumplir-para-usarlo/
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