Latam: Entre concentração e a divisão digital

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A indústria de telecomunicações na América Latina contribui com 8,2% do PIB regional, cerca de 550.000 milhões de dólares.

Enquanto três grandes corporações dominam a maior parte do mercado, milhares de provedores de pequeno e médio porte enfrentam obstáculos regulatórios, fiscais e de infraestrutura que restringem sua capacidade de competir e crescer.

Essa contradição ganha relevância especial se levarmos em conta que são precisamente as PMEs do setor, provedores de internet (ISPs), operadores comunitários e cooperativas, que atendem comunidades rurais e periurbanas, que os grandes players descartam devido à baixa lucratividade.

O setor de telecomunicações na América Latina está em crise?

Por: Gabriel E. Levy B.

De acordo com a GSMA, 225 milhões de pessoas na região não tinham acesso à internet móvel no final de 2023, e apenas quatro em cada dez domicílios possuem banda larga fixa, segundo a CAF.

Essa situação levanta uma questão fundamental para a política pública: como a região pode reduzir sua divisão digital quando as condições estruturais do mercado limitam a intervenção dos atores que mais podem contribuir para esse propósito?

O segmento móvel latino-americano gerou receitas de 71 bilhões de dólares em 2023, com uma estimativa de 84 bilhões de dólares até 2030, segundo a GSMA Intelligence.

A região possui aproximadamente 485 milhões de usuários móveis únicos, uma penetração de 72% e 687 milhões de chips SIM ativos. No entanto, esses números agregados mascaram uma estrutura altamente concentrada.

A América Móvil (Claro/Telcel), com 323 milhões de assinantes móveis em dezembro de 2024, tem presença em 16 países da América Latina e concentra cerca de 35% dos usuários móveis regionais.

A Telefónica (Movistar) registrou 113 milhões de acessos na América Latina no segundo trimestre de 2024, enquanto a Millicom (Tigo) alcançou 46 milhões de clientes móveis no primeiro trimestre de 2025.

O Índice Herfindahl-Hirschman (IHH), estimado pela Unidade de Inteligência Competitiva (CIU), mostra altos níveis de concentração: Honduras alcança 5.530 pontos, Bolívia 5.160, Guatemala 5.110 e México 4.270, todos classificados como “altamente concentrados”.

Até mercados relativamente mais abertos, como Brasil (2.540) e Chile (2.510), ultrapassam os limites de concentração moderada.

Em nove países da região, um único operador detém mais de 50% do mercado de assinaturas: Telcel no México, Claro na Colômbia e Equador, Tigo na Guatemala, Honduras e Paraguai, ICE na Costa Rica, Antel no Uruguai e Movistar na Nicarágua.

A dinâmica se intensifica: em 2024, foram registradas 19 operações de fusões e aquisições no valor superior a 3.000 milhões de dólares, e a Telefónica iniciou um processo de desinvestimento que inclui a venda de suas subsidiárias na Argentina, Colômbia, Peru e outros mercados, consolidando ainda mais os players que permanecem.

Obstáculos que sufocam pequenos operadores

As PMEs do setor de telecomunicações enfrentam um contexto adverso em vários aspectos.

A primeira barreira é o custo do espectro de rádio.

No México, os valores do espectro têm um custo extra de até 186% em comparação com a média internacional, segundo a CIU. O México também é o único país da região onde a quantidade de espectro alocada foi reduzida entre 2021 e 2023, devido aos retornos de operadoras como Telefónica e AT&T, que consideraram os custos insustentáveis.

No nível regional, embora o preço unitário do espectro tenha caído 64% na última década, o espectro total concedido aumentou 51%, gerando custos acumulados maiores para os operadores, segundo a GSMA.

A carga tributária é uma segunda barreira decisiva.

Usuários de conectividade móvel pagam em média 6,5% em impostos específicos por setor, além dos impostos gerais.

A carga tributária total sobre o custo da conectividade atinge 51,4% na Argentina, 42,9% na República Dominicana e 41,5% no Brasil.

Em 2023, os impostos específicos sobre conectividade móvel totalizaram cerca de 4.650 milhões de dólares na região.

A GSMA estimou que a contribuição fiscal do setor (2,8% da receita) dobra sua contribuição econômica direta para o PIB (1,3%), uma desproporção que tem maior impacto sobre operadores menores, que não possuem economias de escala para absorver esse ônus.

Em terceiro lugar, os marcos regulatórios são principalmente projetados para grandes empresas.

O nível de compartilhamento de infraestrutura piora o cenário.

A média na América Latina é de apenas 1,27 operadora por site móvel, um indicador extremamente baixo segundo o estudo da American Tower e SMC+ (2024), que obriga cada operador a replicar investimentos em torres e equipamentos.

A divisão digital persiste onde as PMEs são mais necessárias

A desigualdade de acesso na região segue padrões evidentes.

De acordo com a CEPAL, 77% dos domicílios urbanos têm internet, em comparação com apenas 38% nas áreas rurais (dados de 2022). A diferença socioeconômica é igualmente marcada: 46,4% dos domicílios no quintil mais pobre têm conexão, em comparação com 84,6% no quintil mais rico, segundo o PNUD/CEPAL. No nível nacional, a disparidade é significativa: o Chile ultrapassa 90% de penetração com velocidades fixas de 279 Mbps (quinto lugar no mundo segundo Ookla), enquanto o Haiti não alcança 50%.

A GSMA observa que 44 milhões de pessoas (7% da população regional) não têm cobertura móvel, e outros 174 milhões vivem em áreas com cobertura, mas não usam a internet devido a barreiras de acessibilidade, habilidades digitais ou falta de conteúdo relevante.

Nenhum país latino-americano atinge o limiar de acessibilidade de 2% da renda mensal para os 20% mais vulneráveis.

É nessas áreas negligenciadas que as PMEs desempenham um papel essencial.

O Brasil representa o caso paradigmático: possui mais de 20.000 provedores de internet registrados, dos quais cerca de 9.500 são pequenos provedores, segundo a Anatel.

Esses provedores representam mais de 60% das conexões FTTH e mais da metade dos acessos de banda larga fixa do país.

Na Argentina, mais de 1.500 PMEs e cooperativas oferecem serviços de telecomunicações, e a Câmara das Cooperativas (CATEL) lançou a operadora móvel virtual Imowi para ampliar a cobertura em pequenas cidades.

5G, satélites LEO e fibra: oportunidades em risco de exclusão

As projeções tecnológicas da região são dinâmicas, mas ambíguas para as PMEs. A implantação do 5G está avançando com 76 milhões de conexões até o final de 2024 e mais de 30 operadores comerciais em 13 países, segundo a GSMA e a 5G Americas.

Prevê-se que entre 53% e 55% das conexões serão 5G até 2030.

No entanto, os leilões de espectro 5G exigem investimentos inacessíveis para pequenos operadores: a Argentina arrecadou 875 milhões de dólares e a Colômbia mais de 370 milhões em seus leilões de 2023.

A fibra óptica mostra um cenário mais integrativo.

A tecnologia FTTH já representa 69% das assinaturas de banda larga fixa na região, e o surgimento de redes atacadistas neutras (como V.tal e FiBrasil no Brasil) possibilita que pequenos provedores de internet acessem infraestrutura compartilhada sem fazer investimentos excessivos. A chegada da Starlink, com 264.883 assinaturas no Brasil e presença em 28 países, constitui uma ameaça competitiva direta para pequenos operadores rurais, embora projetos como a Amazon Kuiper estejam explorando parcerias com provedores locais.

O México apresenta sinais regulatórios animadores: sua nova Lei de Telecomunicações de 2025 reconhece pela primeira vez o valor legal dos pequenos operadores e contempla reduções de até 50-60% nos pagamentos pelo espectro em troca de cobertura em áreas sem serviço.

O Peru criou a figura do Operador de Infraestrutura Móvel Rural (OIMR) em 2013, e em maio de 2025 foi formada a Aliança Latino-Americana de Telecomunicações (ALT+), que reúne associações de operadores independentes do México, Argentina e Brasil para articular interesses comuns.

O papel dos pequenos provedores de internet

Em um continente onde apenas quatro em cada dez latino-americanos rurais têm opções de conectividade, em comparação com 71% nas áreas urbanas segundo o Fórum Econômico Mundial, os provedores de serviços de internet sem fio (WISPs) tornaram-se atores indispensáveis para reduzir a divisão digital.

Esses pequenos operadores utilizam tecnologia de radiofrequência, links ponto a ponto e ponto a multiponto, para trazer conectividade fixa a comunidades onde a implantação de fibra óptica ou cobre é economicamente inviável.

Nos esquemas tradicionais de fornecimento de internet para áreas rurais, os números simplesmente não batem: o baixo poder de compra da população, os altos investimentos exigidos pelas redes convencionais e o retorno lento sobre o investimento fazem com que grandes operadores descartem essas áreas.

Como provedores de serviço ilimitado de internet sem fio, fixa e residencial, eles são os principais protagonistas de uma redução real e palpável da divisão digital em áreas rurais que os grandes operadores não atendem.

O modelo é especialmente poderoso devido à sua escalabilidade e baixo custo de entrada. Ao contrário dos provedores tradicionais que dependem de fios caros de fibra óptica ou cobre, essas empresas utilizam tecnologia de radiofrequência para reduzir a divisão digital, permitindo que comunidades rurais e áreas remotas desfrutem de uma conexão estável.

Starlink Mini O investimento em infraestrutura é feito progressivamente à medida que a demanda cresce, sem a necessidade de transferir 100% do território coberto.

O surgimento do Starlink fortaleceu ainda mais esse ecossistema.

Muitos empreendedores utilizam um kit Starlink empresarial como base de sua rede, recebendo o sinal de satélite e redistribuindo-o localmente por meio de antenas terrestres de longo alcance para dezenas de residências Starlink Mini, reduzindo assim o custo por usuário.

Casos como o da Bolívia, onde comunidades como Atahuallpani substituíram uma conexão 3G cara e instável por uma rede sem fio comunitária ponto a ponto, com melhor serviço e menor custo, ilustram o potencial transformador desse modelo.

Uma das grandes forças dos WISPs é que eles começaram a formar associações na maioria dos países latino-americanos, unindo forças para identificar e documentar suas necessidades.

Organizações como WISPMX no México, CAPPI na Argentina e múltiplas associações na Colômbia e Brasil articulam a voz de milhares de empreendedores que, com antenas e torres modestas, estão conectando aqueles que foram deixados para trás pelo mercado formal. O futuro da conectividade rural latino-americana é, em grande parte, sem fio.

Conclusões: A redução da divisão digital na América Latina depende decisivamente da sustentabilidade de seus milhares de pequenos operadores. A CAF estima que alcançar os níveis de digitalização da OCDE exigiria mais 160 bilhões de dólares, 60% a mais do que o previsto.

Embora os operadores planejem investir cerca de 90.000 milhões de dólares entre 2024 e 2030, esse número é insuficiente se não for acompanhado por reformas que democratizem o acesso ao mercado.

Três ações estruturais estão emergindo como prioridades: a redução dos impostos específicos por setor, que, segundo a GSMA, tornaria o serviço acessível a mais 30 milhões de pessoas e poderia aumentar a arrecadação de impostos em até 9.700 milhões de dólares por ano, a implementação de regimes regulatórios diferenciados para pequenos operadores, como os adotados no México e no Peru,  e o fortalecimento dos esquemas de compartilhamento de infraestrutura que permitem às PMEs competir sem replicar investimentos.

Sem essas mudanças, a promessa do 5G e da fibra óptica favorecerá principalmente aqueles que já estão conectados, aprofundando a desigualdade que o setor deveria ajudar a reduzir.