A adoção acelerada da inteligência artificial dispara uma nova forma de angústia coletiva: o medo de ficar para trás. Mais da metade dos trabalhadores americanos declara preocupação com o futuro do próprio emprego e 65% dos usuários de IA temem se atrasar se não a incorporarem com rapidez. A psicologia já estuda o fenômeno com nome próprio: o FOMO da inteligência artificial.
De uma piada universitária a uma escala científica
Por: Gabriel E. Levy B.
Patrick McGinnis cunhou o acrônimo FOMO, medo de ficar de fora na sigla em inglês, em um artigo satírico que publicou em maio de 2004 no The Harbus, o jornal estudantil da Escola de Negócios de Harvard. A explosão das redes sociais transformou aquela tirada em um conceito global e o Dicionário Oxford o incorporou em 2013.
Naquele mesmo ano, o psicólogo Andrew Przybylski e sua equipe validaram o termo na revista Computers in Human Behavior. Eles o definiram como a apreensão de que outros possam estar vivendo experiências gratificantes das quais a pessoa está ausente e criaram a escala de dez itens que a pesquisa segue utilizando. Duas décadas depois, a inteligência artificial deu ao conceito uma segunda vida. Em 2025, a revista Telematics and Informatics publicou a primeira escala de FOMO aplicado à IA, com três dimensões: ansiedade pelo atraso tecnológico, preocupação com o acesso às ferramentas e angústia pelos benefícios que outros já estariam capturando.
Os números de uma angústia mensurável
Os dados confirmam que o mal-estar vai além da anedota. O Pew Research Center entrevistou 5.273 trabalhadores americanos e descobriu que 52% se declaram preocupados com o futuro da IA no trabalho, enquanto 33% se sentem sobrecarregados. Entre os jovens de 18 a 29 anos, a sensação de sobrecarga sobe para 40%.
A Associação Americana de Psicologia detectou em 2023 que 38% dos trabalhadores temem que a IA torne obsoletas as suas funções. Entre os que carregam esse temor, 64% relataram tensão ou estresse durante a jornada, diante de 38% dos que não o sentem. A consultoria EY mediu o fenômeno com outra lente: 71% dos empregados americanos se declararam ansiosos diante da IA e 65% temiam perder o emprego por causa dela. A Gallup, por sua vez, documentou a ascensão do FOBO, o medo de se tornar obsoleto, que passou de 15% dos trabalhadores em 2021 para 22% em 2023. Uma pesquisa da KPMG divulgada no fim de 2025 elevou o alarme: 52% temem que a IA acabe substituindo o seu posto.
O medo como estratégia de mercado
A própria indústria alimenta boa parte dessa ansiedade. O Índice de Tendências de Trabalho da Microsoft revelou em 2024 que 79% dos líderes empresariais consideram imperativo adotar IA para competir, embora 59% admitam que não sabem medir seus ganhos de produtividade. O mesmo estudo descobriu que mais da metade dos empregados esconde o uso dessas ferramentas por medo de parecer substituível. Na edição de 2026, 65% dos usuários confessaram temor de se atrasar se não adotarem a IA com rapidez.
As pesquisadoras Emily Bender e Alex Hanna, autoras do livro The AI Con, sustentam que o estardalhaço publicitário da IA se apoia no medo de ficar de fora: se você não embarcar na onda, ficará para trás. O capital de risco reproduz essa lógica e financia empresas rotuladas com IA sem modelos de negócio sólidos, apenas para não perder a próxima grande aposta.
América Latina entre a pressão e a cautela
O Índice Latino-Americano de Inteligência Artificial de 2025, elaborado pela Cepal e pelo Centro Nacional de IA do Chile, coloca Chile, Brasil e Uruguai à frente da adoção regional, com a Colômbia seguindo de perto. A firma Cintel constatou que 44% dos colombianos temem que a IA afete seu emprego futuro, embora 48% já tenham utilizado alguma dessas ferramentas.
O Observatório do Trabalho da Universidad del Rosario calculou, com dados da pesquisa nacional de domicílios, que 5,9 milhões de ocupados na Colômbia, 25,8% do total, apresentam alta exposição à IA e, ao mesmo tempo, alta complementaridade com ela. Seu líder, Andrés García-Suaza, insiste que a formação funciona como habilitadora: quanto maior o nível educacional, maior a capacidade de transformar a tecnologia em aliada. Na Argentina e no Uruguai, a primeira pesquisa nacional sobre adoção de IA registrou sentimentos mistos, pois o entusiasmo e as expectativas altas convivem com o nervosismo em relação à privacidade e ao emprego.
Saídas diante da angústia
A psicologia explica o fenômeno com mecanismos conhecidos. A comparação social empurra as pessoas a se medirem contra colegas que ostentam domínio de cada ferramenta nova. A aversão à perda, descrita por Daniel Kahneman e Amos Tversky, faz o cérebro sentir as perdas potenciais com mais força do que os ganhos equivalentes. A incerteza sobre o futuro do trabalho completa o quadro e transforma cada lançamento tecnológico em um lembrete de tudo o que ainda falta aprender.
As evidências também apontam antídotos. A pesquisa publicada na Telematics and Informatics identificou a alfabetização em IA como o principal fator de proteção contra a ansiedade: quem compreende a tecnologia deixa de temê-la como uma caixa-preta. A Associação Americana de Psicologia recomenda que as empresas comuniquem com transparência o impacto da IA nos postos de trabalho e envolvam os empregados na escolha das ferramentas. No plano individual, os especialistas sugerem higiene informacional: limites à exposição a notícias de tecnologia, foco no que é controlável e desconexão planejada. O objetivo razoável consiste em entender o que a tecnologia agrega ao próprio ofício, em vez de perseguir cada novidade do mercado.
Em resumo
O FOMO saltou das redes sociais para a inteligência artificial e hoje dispara níveis mensuráveis de ansiedade e angústia no trabalho em todo o mundo. As pesquisas de Pew, APA, EY e Gallup documentam o mal-estar, enquanto a indústria de tecnologia o amplifica como argumento de venda. A alfabetização em IA, a comunicação transparente dentro das empresas e a higiene informacional individual despontam como os antídotos mais eficazes contra o medo de ficar para trás.
Referências
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